Educação religiosa e diálogo são possibilidades para diminuir a intolerância

Carina Barreira

   O Brasil tornou-se um Estado laico em 1890. Desde então, passou a ser inviolável a liberdade de crença e assegurado o livre exercício aos cultos religiosos. Mesmo sendo constitucionalmente imparcial e o país não apoiando ou discriminando nenhuma religião, evidentemente não é isso o que acontece na prática, principalmente com as religiões de descendência africana. A Umbanda e o Candomblé, por exemplo, são duas religiões que figuram entre as que mais sofrem ataques, motivados na maioria das vezes, por intolerância religiosa.

   Daniel Menezes de Oliveira, 35, é terapeuta holístico e pai de santo da Umbanda. Para ele, as razões históricas desse preconceito se baseiam no fato de que “as religiões de matriz africanas estão muito vinculadas ao processo da escravidão. Os negros foram escravizados, trazidos para cá e não puderam exercer a religião deles e outras questões. Então eles acabaram sincretizando para que pudessem fazer o movimento para os deuses africanos deles. E acabaram agregando esses deuses aos santos católicos”. Ele também observa que “mesmo assim, como é uma forma de cultuar a natureza, como é uma forma mais aberta de se ver as questões espirituais não tão presas em caixinhas, normalmente se leva muito essa questão de preconceito e esse peso sobre as religiões afro”.

    As manifestações de ódio, ao longo do desenvolvimento das sociedades, se avolumaram ainda mais com a possibilidade de se expressar nas redes sociais de forma anônima. A democratização da internet fez com que todos pudessem expor suas opiniões e também seus ideais, e com isso vieram à tona diversos tipos de pronunciamentos hostis e criminosos. O próprio fanatismo religioso, muitas vezes, colabora com essas ações violentas. Mas, segundo Daniel, as religiões Afro, em meio a esses movimentos de intolerância, estão conseguindo se pronunciar e ter mais voz.

 

   De acordo com o pastor Fabrício Domingues, 44, o diálogo entre as religiões seria um caminho para conquistar mais tolerância. “O diálogo é imprescindível, essencial e importante entre religiões quando ambas reconhecem na outra a autonomia e suas expressões de culto sem que haja ‘pré-conceito’ onde as diferenças, por mais que não sejam aceitas, fossem respeitadas em um ambiente que pensasse o coletivo e jamais o individual para se manter o mínimo de tolerância em religiões”. No entanto, o pastor afirma que, no Brasil, o movimento de inclusão que estimule mudanças em direção a “religiões minoritárias e ateus é muito pequeno”.

Existe devoção, sacrifício e diferentes religiões girando em torno do mundo, mas o que está mais próximo são as irrefutáveis circunstâncias de amar, respeitar e aceitar o próximo como você gostaria de se sentir cuidado

     Sobre a importância da educação religiosa, o pastor destaca que é uma responsabilidade da família. “A educação, sobretudo a familiar, é inegociável em qualquer aspecto de tolerância. Afinal, diz um dito popular que ‘educação vem de berço’. Não podemos e muito menos devemos esperar que a escola eduque nossas crianças; é responsabilidade dos pais”. Já Daniel acredita em um ensino religioso que possibilite um diálogo maior entre as religiões. “Eu acho que o conceito de ensinar a religião na escola não é ensinar uma religião e preparar as pessoas para uma religião, e sim para várias religiões. A criança, dentro do seu processo de desenvoltura mental, de personalidade, conhece mais e se adequa mais tanto para a religião que ela escolheu como para as outras”.

   Ainda é alarmante o número de denúncias envolvendo casos de discriminação por motivos religiosos no Brasil. As agressões movidas por questões de identidade cultural e religiosa ainda são constantes no país e cada vez mais levantam discussões a respeito do quão a população está preparada para respeitar os diferentes tipos de expressões e credos. Nos últimos anos, o registro de casos de violência envolvendo depredações de terreiros, destruição de imagens e até mesmo agressão física a praticantes de seitas ou grupos religiosos têm sido registradas pelo serviço de atendimento do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), o Disque 100. É importante que este número seja conhecido e divulgado.

Depois de entender melhor o conceito de intolerância religiosa, que tal dar uma conferida nessa playlist para desmistificar e acrescentar o seu dia a dia? Quem sabe você encontre uma música nova, um som, uma letra ou um ritmo que te supreenda com um novo sentido... Vamos nessa?

 

LGBTFOBIA: Quando o ódio vence o amor

Ermeson Santiago

   A população LGBT+ no Brasil, nos últimos anos, vem conquistando cada vez mais direitos. União estável, nome social e mudança no registro civil são exemplos dessa luta. Mas a violência é que se destaca nesse combate. O Brasil é o país que mais mata LGBT+ no mundo. O caso Dandara - em fevereiro de 2017 a travesti Dandara Kettely, 42, foi espancada e morta por vários homens no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Dias depois seu vídeo sendo executada viralizou nas redes sociais, chocando a população - teve bastante repercussão no país e no mundo pela forma cruel como aconteceu.

   A LGBTFOBIA é quando uma pessoa sofre constrangimento, discriminação ou qualquer tipo de violência por ser gay, lésbica, travesti, transexual ou transgênero. Esse tipo de preconceito ocorre de forma banal e aparentemente sem nenhum motivo. Casos mais comuns são palavras ofensivas, frases LGBTFÓBICAS como: “vocês são um lixo para a sociedade”, “devem ser o desgosto para seus pais e decepção para a família”, “vocês são muito bonitos para serem gays” e recusas a atendimentos em serviços públicos ou privados. Essas frases são ouvidas diariamente pela população LGBT+ e muitas vezes vêm em forma de opinião, mas é preconceito com as pessoas.

O psicólogo Berguisson Holanda diz que LGBTFOBIA é apresentada no meio social como alguém que demonstre sentimentos e comportamentos a pessoas diferentes delas

   O relatório sobre Mortes Violentas da População LGBT no Brasil, do grupo Gay da Bahia (GGB), divulgou que em 2018 foram registradas 420 mortes por homicídio ou suicídio decorrentes da discriminação. O que significa que a cada 20 horas no Brasil um LBGT+ é morto. Desses números da tragédia, 45,5% são gays, 39% são transsexuais, 12,5% são lésbicas, 1,9% são bissexuais e 1,2% são heterossexuais. Esses últimos estão na pesquisa porque foram mortos quando saiam em defesa de algum LBGT+ ou confundido com um deles.

   Quem sofreu na pele esse tipo de preconceito foi Jeronimo Neto, 23, fotógrafo, que relatou que estava próximo ao Centro de Arte Dragão do Mar, conversando com um amigo, quando dois homens passaram por eles e começaram a insultá-los sem motivo algum. “Quando meu amigo revidou as ofensas, os dois jogaram uma pedra em nossa direção, que felizmente não nos atingiu. Depois saímos do local e fomos procurar os guardas, mas infelizmente nada foi feito”, concluiu.

   Para o psicólogo Berguison Holanda, formado pela a Universidade Estácio- Fic, 24, que atua no campo social, a LGBTFOBIA (homofobia) pode ser explicada como uma construção social representativa de uma cultura/sociedade violenta, preconceituosa de um pré-julgamento, algo não estabelecido ou assimilado, e que teme o que não está em seu meio comum e cotidiano, e que desvie de uma crença estabelecida através de uma construção socio histórica desse sujeito.

   Atualmente, no país, a LGBTFOBIA não é considerada crime, mas há uma discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema. Alguns estados brasileiros, como São Paulo e Minas Gerais, já possuem leis que proíbem a discriminação de pessoas LGBT+ em estabelecimento público ou privado. Leis que futuramente podem ser de abrangência nacional.

Uma vez estava no shopping com meu ex-namorado, quando eu o abracei veio o segurança do shopping nos dar sermão, avisando que não era permitido fazer ‘aquilo”...eu estava apenas abraçando meu namorado.

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-Jerônimo Nobre

   A cada 20 horas um LBGT é barbaramente assassinado ou se suicida vitima de LBGTFOBIA, o que confirma o Brasil campeão mundial de crimes contra minorias sexuais. É o que diz o relatório do Grupo Gay da Bahia. Em 2018, foram registradas 420 mortes, uma redução de 6% em relação ao ano de 2017, que registrou 445 mortes, número recorde do grupo desde que iniciou a coleta de dados.  Veja, no mapa a seguir, o número de mortes registradas, por região, em 2018.

Lute contra a LGBTfobia: Eu respeito a diversidade,

e você?

Do estereotipo à realidade: o idoso no Brasil

 
Fátima Belarmino

   Quando o assunto é idoso, qual a primeira imagem que vem na mente? Cabelos brancos? Pele sensível com marcas do tempo? Corpo frágil? Sim, esses são alguns sinais físicos que caracterizam a terceira idade. Para a Organização Mundial da Saúde – OMS, pessoas com 60 anos ou mais são consideradas idosas. Mas, questões e debates que envolvem o universo do idoso vão além dos aspectos físicos, típicos da idade, e passam por camadas sociais que abrangem o todo. Atenta a essa população, a Organização das Nações Unidas – ONU, instituiu o dia 1° de outubro como Dia Mundial do Idoso.

   De acordo com dados apresentados em 2018, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas – IBGE, a população idosa em 2031 irá ultrapassar o número de crianças e adolescentes de até 14 anos. Com base nessas informações é possível projetar um horizonte de mudanças consideráveis acerca do envelhecimento da população brasileira. Isso significa que a sociedade, em parceria com o poder público, tem o dever de fomentar discussões a respeito de novas políticas públicas, assim como fazer valer as normas e regras vigentes.

   A Lei n° 10.741/2003, mais conhecida como Estatuto do Idoso, está a caminho de completar 16 anos. O documento contém leis e normas compactadas acerca dos direitos assegurados à pessoa idosa. Das disposições preliminares, o artigo 3° é categórico ao afirmar que: “é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.”.

   Mas, na prática, a realidade é outra. Dados divulgados pelo Ministério dos Direitos Humanos – MDH, no Balanço Geral – Pessoa Idosa, demonstram que até o 2° semestre de 2018, 16. 670 mil denúncias foram registradas em todo o Brasil. Os tipos de violação mais frequentes são: negligência (77,61%), violência psicológica (55,36), abuso financeiro e econômico/ violência patrimonial (40,54), seguida de violência física (26,24). Os dados foram coletados por canais presenciais e por meios eletrônicos, Disque 100, Ouvidoria Online entre outros.

   Para a especialista em Serviço Social, Políticas Públicas e Direitos Sociais pela Universidade Estadual do Ceará - UECE, Thaís Castro, o preconceito contra o “velho” surge à medida que o advento da sociedade capitalista enaltece o “novo” com base na visão produtiva. “Na contemporaneidade há a perpetuação desta lógica. E o velho dentro dessa estrutura é associado à improdutividade, limitação e a outros estigmas negativos. Portanto, tudo que remete ao ‘velho’ é estereotipado enquanto algo negativo. O corpo velho é ridicularizado e tudo que remeta à velhice.”.

   No site do Senado Federal, na aba Livraria do Senado você pode realizar o download gratuito do Estatuto do Idoso, como também comprar a versão impressa.

PDF do Estatuto do Idoso 2° EDIÇÃO (2018):

Thaís Castro, assistente social e especialista em serviço social, políticas públicas e direitos sociais pela UECE (Foto: Criative Shot Films)

   Em contrapartida, Thaís Castro, ressalta que para driblar essa realidade existem estratégias que vão desde a fomentação à elaboração de políticas públicas em função do crescimento significativo da população idosa. Esses são alguns pontos elencados por ela:

  • Estimular a participação em espaços de controle social

  • Fortalecer o protagonismo dos sujeitos velhos

  • Promover a divulgação dos direitos dos idosos. Conhecendo a legislação que os protegem, os mesmos podem exigir o cumprimento dos seus direitos

  • Sensibilizar a sociedade para a defesa dos direitos da pessoa idosa

Artigo promovido pelo Caocidadania:

SAIBA MAIS

Centro de Convivência: troca de experiências e aprendizados

   O Lar Francisco de Assis, em Fortaleza, é uma Organização da Sociedade Civil – OSC, caracterizada como Centro de Convivência. Fundado por Milena Prado Rocha (1919-2003), na década de 60, onde ela iniciava acolhidas voltadas para mães e pessoas idosas. Com a ampliação dos atendimentos, a gestão que presidia a Prefeitura de Fortaleza doou o terreno, localizado na Avenida Rogaciano Leite, 1650. Logo em seguida, campanhas de sensibilização em prol da construção do espaço físico foram executadas.

   Há 22 anos o Lar Francisco de Assis sobrevive. O perfil do beneficiário é composto de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade social. As ações acontecem por meio de acolhimento, atividades ocupacionais, acompanhamento psicológico, orientação jurídica e assistência médica. O Lar tem como objetivo promover qualidade de vida e autonomia para pessoas da terceira idade. De acordo com Ana Lourdes Pontes dos Santos, diretora geral, o número de idosos chega a 145.

   Das atividades permanentes, o café da manhã é lei. Servido às 07h30, os idosos abastecem as energias antes de iniciar a programação do dia. O Lar funciona de segunda à sábado, com exceção de um domingo por mês. Nessa ocasião é realizado o projeto Sacola do Ancião. O foco é atender idosos em situação de extrema vulnerabilidade. “O nosso objetivo é tornar o Lar de Assis em Centro Dia, onde o idoso chega pela manhã e sai no fim da tarde”, explicou Ana Lourdes.

Ana Lourdes Pontes dos Santos, diretora geral do Lar de Francisco de Assis

Voluntariado: amor em prática

   Para participar das atividades, a pessoa idosa passa por uma triagem. O procedimento tem como finalidade captar informações socioeconômicas para mapear o perfil do idoso. O espaço também acolhe o núcleo familiar. Ana Lourdes Pontes ressalta que “para cuidar do idoso é importante que haja assistência no eixo familiar. Uma vez que o diagnóstico levantado no primeiro ano de funcionamento apontou para um volume considerável de conflitos emocionais provenientes do ambiente doméstico.”

Maria Luiza de Jesus dos Santos, aposentada e frequentadora do Lar Francisco de Assis

   Há três anos, Maria Luiza de Jesus dos Santos, 68, frequenta o Lar Francisco de Assis. Ela participa das atividades de segunda à sábado. Para ela, as vantagens são sentidas em vários aspectos. “Aqui eu trabalho a memória, a coordenação motora, por meio da dança; até aula de pintura já fiz.”.

   

  Para configurar o trabalho voluntario é de extrema importância entender mais sobre o envelhecer e se dedicar. Nalva Teixeira, coordenadora administrativa, exerce há 33 anos o voluntariado. Só no Lar Francisco de Assis são 22 anos. “O trabalho voluntário é uma doação. Exercício de entrega e amor, na verdade, é um processo de amor.”  De acordo com Ana Lourdes Pontes, um dos desafios presentes é captação de voluntários. Áreas como comunicação e administração, por exemplo, estão em situação de carência.

Conheça o projeto TattooAge, idealizado pela Fundação GetOud

 

Bate-papo com a professora Zelma Madeira

 

Influenciadores digitais: uma nova profissão

Amanda Oliveira

Você colabora para um futuro sem racismo?

Igor Thawen

   A luta contra o preconceito racial perdura por longos anos. No Brasil, são mais 500 anos de desigualdade, que se iniciou na colonização portuguesa. Os índios foram os primeiros povos a sofrer preconceito por conta de sua etnia. O termo racismo refere-se ao indivíduo que se sente superior em relação ao próximo pela cor da pele e nacionalidade, englobando negros, índios, quilombolas, ciganos e umbandistas, por exemplo.

   A humanidade registra vários eventos e pessoas que marcaram a luta contra o racismo, como Nelson Mandela, presidente da África do Sul de 1994 a 1999. Ele é importante figura histórica que ajudou a colocar um fim no regime de segregação racial, chamado de Apartheid, que ocorreu entre 1948 e 1994, comandado pela minoria branca na África do Sul. No Brasil, tivemos o movimento político chamado de Abolicionismo, que lutava pelo fim da escravidão na segunda metade do século XIX, e colaborou com o fim dela, que culminou com a Lei Aurea, em 1988, assinada pela princesa Isabel.

 “Peguei o trem errado e acabei numa estação desconhecida. Tive que passar a noite nela, meu celular descarregou e vi uma tomada ao lado dessas máquinas que vendem snacks. Peguei meu carregador e coloquei na tomada. Veio uma policial e alertou que eu não poderia carregar meu celular ali. Retirou o celular da tomada e jogou nas minhas mãos. Falei quase chorando que precisava carregar meu celular, mas a policial se negou. Eu tenho quase certeza que era por eu ser preto; me senti muito maltratado por algo que eu precisava”, comentou Gabriel Brito, 22, bailarino cearense que hoje mora na Alemanha.

   “A primeira forma da gente enfrentar o racismo, é aceitar que ele existe. Se eu tenho um problema, eu tenho que ir atrás de uma solução”, afirmou Zelma Madeira, 50, mulher negra, mãe, professora e gestora da Coordenadoria de Igualdade Racial do Ceará (Ceppir). Ela também relembra que para superar o racismo, existem as políticas públicas, universais e as políticas especificas, que são voltadas para a promoção da igualdade racial, divididas em três eixos: Política Repressiva, Política Valorizativa e Política Afirmativa, como exemplificado abaixo:

Gabriel hoje mora na Alemanha e acredita que sofria menos preconceito no Brasil

Política Repressiva: Entende-se aqui que o racismo é crime, como previsto na Lei n. 7.716/1989. “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, assegurando que o indivíduo que comete esse crime estará sujeito à pena de reclusão de até 5 anos.

 

Política Valorizativa: Busca educar e falar sobre racismo desde a infância, como afirma a Lei n. 11.645/2008, que inclui no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e cultura afro-brasileira e indígena”.

Política Afirmativa: Tem um tempo certo de duração, visando reparar anos de desigualdade social, como as cotas sociais, previstas pela Lei n. 12.711/2012, que garantem 50% das vagas nas Instituições de Ensino Superior vinculadas ao Ministério da Educação e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. Essa lei tem duração de 10 anos, sancionada em agosto de 2012 e se estende até 2022.

Eu não quero só dor, não quero estar todo tempo guerrilhando, eu quero paz, eu quero descansar, porque cansa!

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-Zelma Madeira

   De acordo com o IBGE, em pesquisa realizada em 2014, 53,6% da população brasileira é composta por negros (pretos e pardos). Em contrapartida, apenas 17,4% aparecem como os mais ricos do país, com renda média de R$ 11,6 mil reais por pessoa.

   O racismo mata e fere psicologicamente quem sofre dele. É necessário que a sociedade compreenda que o preconceito racial é uma pauta de todos, e que não basta não ser racista, também é necessário ser antirracista. A desigualdade ainda é evidente, mas é possível dizer, de modo geral, que a compreensão sobre a questão está em um degrau acima de ontem, que pode contribuir para um futuro sem racismo e desigualdade social.

O preconceito racial existente em histórias e números

   Muitos preconceitos estão velados em brincadeiras, dizeres e opiniões que ferem o sentimento de quem escuta. A professora Elizabete de Figueiredo, 42, relata que alguns comentários surgiram desde a infância. “A primeira vez que senti que eu era tratada diferente por ser negra, eu tinha por volta de cinco anos. Fui levada para cortar os cabelos. No salão, uma senhora elogiou meus cabelos, mas a cabeleireira disse que era o pior cabelo que existia, porque era cabelo ruim”, relembrou.

   Pesquisa feita pelo Censo da Educação Superior, em 2016, mostra que docentes negras e doutoras da pós-graduação somam menos de 3% das vagas em instituições públicas e privadas. A professora Zelma Madeira é uma das primeiras negras doutoras a lecionar na Universidade Estadual do Ceará (UECE), confirmando os dados ilustrados na pesquisa.

   “É incrível como o racismo impera nas pessoas mais velhas. Meu avô não pode ver um negro que diz que não presta, e ele é preto”, descreveu Pedro Henrique, 22, estudante. São casos reais de racismo, provando que, de fato, vivemos em uma sociedade racista, que ainda acredita na superioridade ou inferioridade tomando como referência a cor da pele. O cidadão não deve silenciar perante tudo isso, seja vitima ou telespectador.

   O Brasil tem leis que punem atos que discriminam raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Para denúncia de racismo, basta ir a uma delegacia mais próxima e registrar um Boletim de Ocorrência. Em caso de racismo pela internet, deve ser copiado o link da postagem, dar print do perfil, comentários e imagens e enviar para o site SaferNet, ou através do aplicativo MPF Serviços. É necessário que se fale de racismo e que sejam mostrados casos reais, para que as pessoas entendam que ele existe. Para refletir mais sobre o tema, estou te indicando 5 filmes que tratam sobre racismo em suas diversas vertentes.

   A tecnologia e, principalmente, as redes sociais vêm revolucionando o mercado e criando novas profissões. As redes sociais representam um mundo novo cheio de oportunidades. O Instagram, rede social bastante utilizada para lazer, também é lugar de profissionais atuarem com seus conhecimentos, além de ser um mercado amplo de possibilidades. A figura do digital influencer, por exemplo, cresceu em especial na última década. Apesar do termo já ser bastante conhecido, é natural que algumas pessoas, que não usam a internet com frequência, ainda não saibam do que se trata.

   O influenciador digital é um termo dado para pessoas que se relacionam no mundo virtual por meio das redes sociais e que estão entre os principais elementos capazes de direcionar uma decisão de compra e uma maior aproximação entre uma marca e o seu público-alvo, por meio de fotos, vídeos e textos. É uma atividade que pode ser bem renumerada e que proporciona glamour, viagens e presença em eventos. Mas, por muitas vezes, o blogueiro, por fugir do tradicional, sofre preconceito por seu meio de atuação não ser considerado como uma profissão.

   O blogger de gastronomia e viagem Luiz Victor, 27, é acompanhado por 52 mil seguidores no Instagram. Se formou em 2014 em Publicidade e Propaganda, e fez pós-graduação em Marketing, na Califórnia (EUA). O início da sua trajetória com o Instagram começou naturalmente, quando ele foi convidado para escrever uma coluna da revista Invoga, sobre gastronomia. Pessoas começaram a lhe seguir por conta do que escrevia, o que trouxe vários contratos e serviços. Entre as suas publicações, destacam-se fotos em restaurantes, looks do dia e registros de suas viagens a trabalho.

   Luiz não teve apoio da sua família. “Meu pai achava que eu estava brincando de internet, brincando de postar foto e mandava eu fazer algo útil. Somente quando as pessoas que me conheciam começaram a chegar no meu pai para parabenizar pelo meu trabalho e até pedir foto, foi que ele começou a levar a sério; quando ele me viu ganhando dinheiro e com independência financeira”. Hoje o Instagram é a sua principal renda, no qual empenha 80% do seu tempo gerando conteúdo e os outros 20% dedica à empresa que tem em sociedade com seu pai, uma empresa de comidas congeladas.

Em suas postagens, Luiz Victor posta dicas de restaurantes em Fortaleza e em suas viagens

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As pessoas ainda não absorveram que isso é um trabalho

-Luiz Victor

   Para Luiz, as pessoas ainda não entendem 100% que o influenciador de gastronomia e viagem tem um custo para estar gerando conteúdo nas redes sociais. Ele sente dificuldade de acertar a remuneração de um trabalho por conta do valor que estabelece. Os donos dos estabelecimentos não querem pagar porque não estão habituados a fazer esse investimento, e muitas vezes preferem fazer por permuta. Alguns acham que ele está ali pra comer de graça. Mas Luiz faz questão de cobrar o valor referente ao conteúdo que vai fazer, além de sempre pagar a conta justamente para tirar isso da cabeça das pessoas.

   

   Cris Moreira, 26, começou sua trajetória por meio do blog. Em 2015, hackearam o seu acesso com invasão de servidor e vírus, o que a impossibilitou de recuperar o acesso de imediato, pois teria que resetar todo o sistema. No entanto, como iria perder todo o conteúdo de mais de 2 anos de trabalho, preferiu ter paciência e esperar até conseguir recuperar seu blog. Nesse meio tempo, já tinha conta no Instagram, mas não era o seu foco. Como ficou sem sua principal mídia de atuação, começou a focar na nova plataforma e em seu desenvolvimento.

Cris Moreira posta várias dicas de beleza e moda para as suas seguidoras
-Cris Moreira

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É uma área em crescimento sim, mas que se modifica constantemente e você precisa estar atento a isso. Sempre existiram influenciadores e, na minha opinião, o que muda apenas é o meio em que estão inseridos

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   Hoje, ela tem cerca de 79 mil seguidores. Suas postagens são direcionadas a maquiagem, moda, receitas de comidas e decoração. Diz acreditar que o Instagram é uma área em crescimento, mas que se modifica constantemente e que o público precisa estar atento a isso. Sempre existiram influenciadores e, na sua opinião, o que muda apenas é o meio em que estão inseridos. Independente do meio, o que for mais real vai predominar.

   Cris relata que se sente muito triste quando escuta comentários como: “a profissão é muito fácil”, “também quero fazer nada o dia todo”, “queria acordar no ‘salão’ assim todo dia”, “sua profissão de ‘blogueirinha’ é muito boa”. Eles costumam vir de colegas mais distantes, que não entendem a rotina de trabalho ou de pessoas aleatórias, “pessoas que têm a cabeça fechada o suficiente para não entenderem que as profissões mudam, atualizam e surgem o tempo todo”.

Prints: Interatividade e publicidade

 

As muitas vertentes da xenofobia, um crime silencioso

Matheus Castro

   O novo sempre foi motivo de desconfiança para as pessoas. Se adaptar a um ambiente diferente, conhecer outras culturas e raças pode inicialmente causar estranhamento, e isso é considerado normal. No entanto, a partir do momento que passa a ser justificativa para violência, seja ela física ou verbal, a questão é outra. Conhecida como xenofobia, trata-se de um medo ou aversão aos estrangeiros. Todavia, comportamentos que segregam e excluem pessoas que vêm de outros países ou estados, também constituem atitudes xenofóbicas.

 

   Dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos, de 2015, apontam um aumento de 633% no número de denúncias no Brasil comparados ao ano anterior. O aumento é significativo. Por outro lado, o percentual não é tão grande na Justiça. De todos os casos, cerca de apenas 1% vira processos. O medo e a desinformação fazem com que os imigrantes não sigam em frente após denunciarem, e é isso o que torna a xenofobia um crime tão difícil de ser identificado e devidamente punido.

   Para o psicólogo Gabriel Sousa, 23, a xenofobia é uma questão cultural, principalmente da generalização que as pessoas fazem das informações sobre outras culturas, nações e religiões. É do julgamento que fazem sobre o que deve ser o certo e o errado. “A gente que mora no Nordeste sabe como as pessoas do Sul nos enxergam. Eles têm uma visão generalizada do que veem na televisão. E, por falta de conhecimento, tornam isso uma verdade universal. Acham que todos moram no meio do sertão, sem água ou comida”, afirma.

A xenofobia é discreta e por isso as pessoas interpretam um pedido de ajuda como frescura ou besteira. Mas, em casos mais graves, a vítima pode desenvolver quadro de depressão, crise de ansiedade, tudo por medo de como as pessoas vão lhe acolher.

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Gabriel Sousa

   A xenofobia não se trata apenas de uma agressão física. É a exclusão, o tratamento diferente, uma piada inconveniente. Gabriel explica que por passar despercebida em comparação a outros tipos de preconceito, as vítimas muitas vezes não conseguem pedir ajuda. “A xenofobia é discreta e por isso as pessoas interpretam um pedido de ajuda como frescura ou besteira. Mas, em casos mais graves, a vítima pode desenvolver quadro de depressão, crise de ansiedade, tudo por medo de como as pessoas vão lhe acolher”, finaliza o psicólogo.

   O estudante Guilherme Magalhães, 23, vivenciou isso ao fazer um intercâmbio em Portugal. Ele percebeu que o crescimento do fluxo turístico no país europeu fez com que os nativos tivessem receio com os estrangeiros: “Os portugueses se sentem injustiçados com o aumento dos preços porque tem mais gente morando ou visitando”. A dificuldade linguística é outro ponto que chama a atenção lá. “Eu tinha uma amiga que foi morar em Portugal ainda criança e ela sofreu muito bullying por causa do sotaque brasileiro. E isso marcou tanto que hoje ela se sente mais confortável conversando no idioma de lá”, relata.

Guilherme conheceu pessoas de diversos países ao fazer intercâmbio para a Europa (Arquivo pessoal)

   Guilherme afirma que, assim como em outros países, os portugueses já possuem opinião formada sobre os brasileiros, só que mais forte. “Lá ou te tratavam bem, com carinho, ou mal, te olhando com a expressão de ‘você não deveria estar aqui’, fazendo piadas. Eu já vi casos de xenofobia e racismo juntos”, relembra o estudante, que contou ter feito mais amizades com pessoas de outros países do que com os portugueses.

   Para denunciar casos de xenofobia, o procedimento é o mesmo de qualquer outro crime: ir à delegacia e realizar o Boletim de Ocorrência ou pelo Disque 100, o serviço de atendimento gratuito para denúncias de violações de direitos humanos.

Prints: Exemplo de Xenofobia nas redes sociais

Compilado de

filmes sobre xenofobia

 

Mulheres têm conquistado seu espaço no esporte

Gerson Barbosa

   O mundo tem em suas raízes o machismo, e isso foi sendo transmitido de geração para geração. Nos últimos anos, a expressão geral do sentimento foi diminuindo e sendo transferido para ambientes específicos, como é o caso dos esportes. Por anos, modalidades como futebol e artes maciais foram vistas como locais “para homens”.  Nos anos 1980, o futebol feminino deixou de ser proibido no Brasil e a categoria para mulher no UFC, maior campeonato de lutas do mundo, foi criada nesta década. O preconceito tem mudado conforme os tempos passam e as mulheres têm conquistado cada vez mais os seus espaços, seja praticando o desporto ou trabalhando na cobertura.

   É o caso da repórter Germana Pinheiro, atualmente trabalhando para a TV Ceará (TVC). Lá, ela cobre os principais times cearenses de futebol: Ceará e Fortaleza. Germana trabalha na área desde 2010, e teve de provar o seu valor ao longo do tempo de trabalho, bem como suas colegas de profissão, que estão cada vez mais presente nos estádios fora das arquibancadas como dentro das tribunas de imprensa, ou até mesmo no gramado do campo. Ela fala abertamente de como esse preconceito acontece e atrapalha o trabalho feminino nos estádios, alegando que há desmerecimento no ofício e que chega até mesmo a afetar a credibilidade da repórter.

Germana Pinheiro trabalha com futebol desde 2010 - Foto Arquivo Pessoal

   “(Acontece) Quando eles tentam menosprezar nosso trabalho. Muitas mulheres que estão ali, trabalhando no futebol, têm a experiência para estar ali. Nenhuma mulher é contratada para fazer futebol só por ser mulher. Ela tem que mostrar que entende do assunto. Então quando alguém tenta menosprezar o trabalho dela e achar que não conhece de futebol, isso atrapalha bastante. Subestimar nossa capacidade, achar que porque somos mulheres não entendemos do esporte, atrapalha na nossa credibilidade. Nós comentamos baseadas no que conhecemos e nada difere das análises dos homens. Claro que profissionais têm visões diferentes, mas cabe ao profissional fazer uma análise correta, independente do gênero”, declara Germana.

   Contudo, ela tem notado que há uma mudança acontecendo desde quando entrou no ramo. “Era bem pior quando eu entrei. No começo, sentia mais isso na pele. Eu percebo que tem mudado, sim. Os homens têm visto como as mulheres precisaram por muito tempo provarem que entendem e que estavam ali por competência. Muitos deles se convenceram que estávamos buscando o nosso espaço por merecimento”, revela a repórter, que ainda indicou uma melhora passando pelos novos profissionais. Ela acredita que a bandeira que as mulheres erguem tem ajudado na formação das novas gerações e, portanto, eles acabam entrando com uma cabeça diferente dos mais antigos.

   E se para quem trabalha acontece dessa maneira, para aquelas que praticam não é diferente. Jessyka Tayanne, 22, é praticante de Jiu-Jitsu, arte marcial que cresceu exponencialmente nos últimos 20 anos. A lutadora contou que no meio da luta o assédio existe bastante, e isso já a forçou a evitar determinadas academias por conta da inconveniência de um professor, além das piadas estereotipadas dos alunos. Nesse caso, o círculo social é importante, e ela revelou que seus companheiros próximos a respeitam, e que “o que complica são os de fora”. O assédio, aliado ao desrespeito moral, são os maiores desafios para mulheres que se aventuram no meio da luta, como disse Jessyka.

   “(Hoje) Não (sofro) muito. Mas já sofri bastante no início em relação ao preconceito só pelo simples fato de praticar artes marciais. O maior desafio é em relação ao gênero, assédio e desrespeito moral. Não fui a primeira e infelizmente não serei a única. Mas a participação da mulher tem crescido bastante, embora ainda seja vista a escassez de mulheres em campeonatos e academias. Eu, por exemplo, sou a única menina matriculada no meu horário de treino do Jiu-Jitsu onde pratico. Recebo elogios como ‘você luta como um homem’, que certamente as pessoas veem isso como a mulher ser forte, guerreira, técnica e rápida. Mas também tem machismo nisso”, relata Jessyka. Ela treinou três meses escondida dos pais, que chegaram a negar o dinheiro da passagem, mas hoje autorizam a ida.

   O assédio acaba sendo uma marca forte para quem pratica a luta. No Jiu-Jitsu, a luta no chão e utilizando as mãos é ato comum, até porque essa é a essência da arte marcial. Jessyka relata que, por isso, acaba sendo uma maneira dos homens ‘se aproveitarem’. “Em relação ao assédio, meu dever é levar ao meu professor. Vale lembrar que o assédio é culpa do agressor e não dá vítima, e que nunca devemos desmerecer um assédio, mesmo que não seja com você. Devemos ser respeitadas com ou sem uma figura masculina que nos represente. Elogio é diferente de assédio, mão boba é diferente de errar a posição. Mas sempre que acontece algo eu reporto ao meu professor, e ainda peço que elogiem a minha guarda, e não o meu corpo”, defende.

O maior desafio é em relação ao gênero, assédio, desrespeito moral. Não fui a primeira e infelizmente não serei a única. Mas a participação da mulher tem crescido bastante, embora seja vista uma escassez em academias ou campeonatos.

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-Jessyka Tayanne

   No Jiu-Jitsu, as mulheres têm conseguido avanços nos últimos anos. A igualdade de premiação entre os gêneros, por exemplo, foi uma conquista que a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu possibilitou. E embora isso represente a força das mulheres em ter os seus espaços, ainda há muito para ser feito, tanto para quem pratica, quanto para quem trabalha com o esporte. O ambiente machista no desporto tem ficado cada vez mais democrático, mas o caminho para a igualdade de gêneros ainda é longo.

 

Distúrbios Alimentares: doença grave é vista como capricho

Willianna Barboza

   Os transtornos alimentares são distúrbios psiquiátricos de ordem multifatorial, onde o indivíduo se relaciona de forma prejudicial com o alimento, afetando diretamente a sua saúde psicológica, nutricional e social. Segundo Yngrid Bandeira, nutricionista esportiva e comportamental, “neste quadro patológico, qualquer que seja o diagnóstico podemos observar que há a presença de distúrbios da imagem corporal, onde o indivíduo não se enxerga da maneira que ele é”.

 

   Geralmente o transtorno alimentar inicia com uma dieta alimentar restritiva mal orientada e mal realizada. Em resumo, indivíduos com transtornos alimentares apresentam comportamento introspectivo quando se trata de ambientes que tenham comida envolvida, não gostam de falar de alimentação ou, ao contrário, gostam muito de falar de alimentação, mas quase nunca os outros o veem comendo. Possuem como característica em comum o conhecido "comer transtornado", que é justamente uma forma não saudável de se relacionar com a comida.

Yngrid Bandeira, nutricionista esportiva e comportamental

   Yngrid fala que a melhor forma de ajudar um amigo com transtorno alimentar é apoiando e tentando conscientizá-lo de que o tratamento indicado é sempre buscar uma rede de apoio no tratamento multidisciplinar, com psicólogo, psiquiatra e nutricionista. São exemplos de alguns transtornos alimentares: anorexia, bulimia e ortorexia nervosas, diabulimia, transtorno compulsivo alimentar periódico e vigorexia. Cada um possuindo suas próprias definições e peculiaridades distintas.

 

   As redes sociais acabam influenciando diariamente esses transtornos. Muitas pessoas tiram fotos de uma vida tida como "ideal", em viagens que muitas vezes a maioria não vai conseguir fazer, com alto poder aquisitivo, que não faz parte da realidade da população, com corpos tidos como "perfeitos". Tudo isso simbolizando o sucesso que muitos nunca alcançaram.

   Para Isabela Nobre, de 19 anos, tudo começou no primeiro ano do ensino médio “Eu tinha uns 13 para 14 anos. Foi um ano cheio de problemas e mudanças e minha autoestima baixou muito nessa época. Minha mente meio que bloqueou as memórias daquele ano. Mas eu lembro de fazer muita loucura pra emagrecer. Eu tinha uma amiga que tinha (o transtorno), então ela pesquisou e eu vi que me encaixava nos mesmos sintomas”. Ela conta que apesar de já ser magra não se sentia magra o suficiente, e que ficaria mais bonita emagrecendo. “Eu tinha uma obsessão com a minha barriga, não queria que tivesse uma dobra de pele sequer. Acho que piorou quando eu comecei a ver muitas coisas de cantoras koreanas que são muito magras, e comecei a me comparar o tempo todo com elas, querendo ser daquele jeito”.

   Isabela relata que nunca procurou ajuda profissional por sempre ter guardado para si. “Me abria pra poucas pessoas e normalmente gente não muito próxima, porque se eu contasse pra amigos íntimos eles começariam a vigiar minha alimentação e a última coisa que eu queria era isso”. Ela sempre procura tratar como se não fosse grave, mesmo sabendo que é, “Normalmente eu consigo passar boa parte do tempo bem, sem crises, então foi um dos motivos de ter achado que conseguia melhorar sozinha. Quando tenho crises, uma voz na minha cabeça surge e fala coisas que baixam minha autoestima, diz que estou gorda, que estou feia, que se eu comer tal coisa vou engordar”.

   Hoje, Isabela tenta não se comparar e evita fotos de pessoas famosas, “Depois disso eu contei pra minha família, falei como se sentia, e o que fazia. Eles começaram a me fazer comer mais e ver que eu estava muito magra. Procuro me comparar o menos possível, evito foto de famosas, evito Instaram com beleza porque é só gatilho, também evito me olhar no espelho, e tiro as fitas, balanças essas coisas de perto”.

 

Sobre a influência da internet, a nutricionista esportiva e comportamental Yngrid revela uma dica dada aos pacientes “uma coisa que eu sempre digo em consultório: para de seguir blogueira fitness e segue insta de cachorrinho. Eles fazem a gente rir”.

Quebrando tabus

   A gordofobia é um preconceito raramente considerado pela sociedade como tal, mas é um assunto que, como qualquer outro que gere estranhamento, merece ser falado e conhecido. Joseanne Nery, jornalista formada pela Uni7 em 2018, dedicou seu TCC ao tema. Ela produziu e editou um documentário voltado para esta realidade e dá voz a três mulheres gordas e ativistas, mostrando que esse preconceito existe e que, como qualquer outro, merece ser combatido.

Como surgiu a ideia de falar sobre esse tema?

R: Tenho uma grande amiga, que inclusive participa do meu TCC, e nós sempre saíamos para bares, restaurantes e víamos muitos olhares reprimindo ela por ser uma mulher gorda. E isso era muito complicado para mim, pois eu não conseguia entender como uma pessoa pode julgar outra pela forma como ela é, enfim, só por ela não estar dentro do padrão de peso aceito pela sociedade. E ela me contava muita coisa que foi me incomodando. Eu também nunca fui uma pessoa dentro dos padrões, nunca fui obesa ou gorda, mas também não estava nos padrões. Mas o que mais me motivou a falar sobre o tema foi esse sofrimento da minha amiga. Com ela é mais intenso, as pessoas realmente excluem por ela ser gorda.

Como foi produzir o vídeo?
R: Foi uma experiência bem interessante para mim. Eu passei por três locais, fui para São Paulo, Brasília e aqui em Fortaleza. E minha ideia foi pegar três cidades diferentes e três mulheres ativistas falando sobre o tema, e mostrar que é um tema recorrente em todas as cidades. E que, independente da região, as vítimas sofrem pelos mesmos motivos. Apesar dos discursos serem diferentes, em muitos momentos acabam coincidindo, pois elas sofrem o mesmo tipo de preconceito. E eu quis comprovar isso no meu TCC. Durante o processo, eu consegui ter uma ideia de tudo, não apenas do preconceito em si, mas de como é a vivência das meninas.

O que você aprendeu durante a pesquisa mudou de alguma forma sua forma de ver o mundo e as pessoas? 
R: Tudo é um grande aprendizado, mas esse TCC foi o maior aprendizado da minha vida porque eu conheci de perto a realidade dessas mulheres, vi de perto coisas que pareciam ser bobas tomarem grandes proporções. E hoje em dia tomo muito cuidado ao falar sobre o assunto, ao chamar uma mulher de gorda e isso na verdade não é uma ofensa. Eu aprendi muito com esse tema, eu cresci muito como ser humano ao fazer esse TCC. E esse é um assunto que todos merecem conhecer, coisas que às vezes estão nas entrelinhas como, por exemplo, uma mulher não poder sentar em uma cadeira de avião por estar fora dos padrões. As coisas não são feitas para elas e elas se sentem excluídas.

Você teve retornos de pessoas que se identificaram com o projeto? Se sim, como se sentiu?

R: Todas as pessoas que assistiram meu projeto, sendo elas gordas ou não, ficaram muito satisfeitas com a temática e passaram a enxergar de outra forma, passaram a ver realmente o preconceito da gordofobia. E as mulheres gordas se sentiram identificadas com o projeto e vieram me agradecer; recebi até comentários no próprio vídeo. Sinto que foi um tema pertinente e que eu pretendo continuar trabalhando caso siga a área acadêmica. É um tema pouco explorado e que merece muitas pesquisas e uma total atenção, porque as pessoas não falam, mas é muito importante, é um preconceito como qualquer outro e que merece ser destruído.

As diferenças do outro causam intolerância em você?

Joana Kelli
 

   O preconceito social é antigo. Na obra do sociólogo Karl Marx, em 1867, ele afirma em uma crítica ao sistema capitalista, que a sociedade era dividida em dois grupos: a burguesia e o proletariado, ou seja, patrão e o empregado. Essa abordagem determinava uma visão, ainda que no século XIX, das primeiras noções de diferenças sociais, classificando as pessoas de maior ou menor poder aquisitivo. Porém, atualmente, falar de diferenças sociais vai além das visões de Marx naquela época.

   No Brasil, por exemplo, com as últimas eleições para Presidente da República, o Presidente Jair Bolsonaro voltou a falar sobre questões sociais, em uma entrevista que cedeu para uma tevê no Piauí. Ele chamou a política de cotas de 'equivocada' e que o combate ao preconceito é 'coitadismo'. Mostrou, assim, não se importar com o assunto, diferente dos governos Lula, que trouxeram programas sociais para tentar diminuir questões de desigualdades sociais existentes no país.

   Para Helena Damasceno, 45, psicóloga, o preconceito parte do princípio da diferença, de você não aceitar no outro o que é diferente em você. Ela acredita que os impactos que o preconceito causa na vítima não podem ser mensurados, “você não vai saber o impacto que você disse ou fez vai causar no outro”, afirma. “O preconceito traz uma carga pesada para quem carrega, e que precisa desconstruir essa realidade, oferecer outras possibilidades para o sujeito, porque estamos vivendo em um mundo intolerante”, destacou.

   Segundo ela, todo e qualquer tipo de produção de ódio, de preconceito, não é uma escolha, não é uma opinião, é uma incitação de diferença, de menosprezo pelo outro. Ela diz que, como psicóloga, tem um papel muito grande de tentar não relativizar a violência, mas de oportunizar, de facilitar mais espaços de tranquilidade e afeto, e que o jornalista tem o papel de problematizar e levar informações para que esse tema seja debatido cada vez mais.

Psicóloga Helena Damasceno faz trabalhos voluntários na Casa de Retaguarda Clínica
-Helena Damasceno

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Você não vai saber o impacto do que você disse ou fez vai causar no outro

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    Ana Flor, 24, estudante de Serviço Social, cotista da UECE, afirma já ter presenciado casos em que os seguranças barraram a entrada de alunos por julgá-los, muitas das vezes, pela roupa que eles estavam usando. Ela também acredita que a universidade em que estuda é preconceituosa.

      Joyce Alves, 22, cantora, por sua vez, conheceu o preconceito no ensino fundamental: “ alguns colegas chegaram a se afastarem de mim, talvez eles me consideravam diferente.” Ela confessa que recebeu diversos apelidos por frequentar uma igreja, pela aparência e principalmente pela forma de se vestir. Ela diz que hoje os olhares das pessoas, em alguns lugares onde vai cantar, continuam julgando pela roupa que veste.

Charges

 
Kerine Serpa

O conhecimento é uma estratégia eficaz no combate ao preconceito

   Qualquer sociedade que desconhece seus direitos é um segmento alienado e, portanto, mais fácil de ser dominado. O conhecimento é, então, uma das formas mais eficazes de libertação, de conquista, de superação, de combate a qualquer tipo de preconceito. Um exemplo disso é Aurenilo Oliveira, que tem apenas 24 anos e já está no nono semestre do curso de direito. O fato é que o estudante é deficiente visual, como ele mesmo diz “cego de nascença”. O Universitário nasceu e cresceu no município de Ocara, interior do Ceará e, foi para “se formar”, que veio à Fortaleza. Aluno destaque, Aurenilo conquistou um estágio no Ministério Público Federal e hoje é um adulto que sabe a importância de lutar pelos seus direitos e sonhos. “Digo sempre que a pessoa nunca deve desistir do que quer e tem que estudar sempre, porque não dá pra ficar dependendo de benefícios”, ensina.

   Aurenilo é um dos 45 milhões de cidadãos que têm pelo menos um tipo de deficiência, no Brasil. O Ceará é o terceiro estado brasileiro com maior número de pessoas com deficiência, sendo superado apenas pelo Rio Grande do Norte e Paraíba. Aqui, são aproximadamente 2,3 milhões de pessoas com deficiência. Os dados estão no último censo realizado pelo IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Realidade, esta, que mostra a necessidade do desenvolvimento de políticas públicas de inclusão, que vão desde o ensino infantil ao mercado de trabalho, para que a cidadania possa ser exercida com plenas condições de igualdade.

Aurenilo, estudante de Direito, defende que devemos lutar diariamente pelos nossos objetivos

   Para assegurar esses direitos e punir atitudes discriminatórias, foi instituída, em julho de 2015, a Lei Brasileira de Inclusão, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. Direitos que a Jornalista Helaine Oliveira conhece bem e luta para que seu filho, João Roberto, tenha assegurado. João foi diagnosticado com TEA, Transtorno do Espectro Autista, ainda criança e a primeira barreira do preconceito a ser enfrentada foi a da inclusão escolar. “Na primeira escola que matriculamos o João não tivemos uma boa experiência porque não era uma escola inclusiva. Na segunda escola que visitamos, nos foi dito que não havia vaga pra ele, o que não pode. E, somente na terceira escola que conhecemos, fomos bem acolhidos”, relata com indignação.

   Preconceitos como este precisam ser combatidos com urgência, segundo Reinaldo Gastão, advogado que ficou deficiente físico depois que sofreu um acidente aos 20 anos. Hoje, membro da Comissão da Pessoa com Deficiência OAB – Ce, Gastão acredita que a melhor maneira de fazê – lo é através da informação. “Não devemos ser vítimas. Temos, sim, que conhecer nossos direitos. Devemos exigir do Governo e da sociedade respeito. Precisamos de acessibilidade e inclusão e precisamos lutar por essas conquistas todos os dias”, defende.

   Lutas e conquistas que Helaine contabiliza diariamente. Para ela, a questão da inclusão é necessária e benéfica também para a sociedade, e não somente para a pessoa com deficiência. Exemplo disso é a inclusão escolar. “Quando se tem uma criança deficiente em sala de aula, todos os alunos aprendem sobre tolerância, paciência e respeito um com o outro. Além do que a criança com deficiência se sente mais acolhida, mais querida e isso é extremamente importante para o convívio social dela.”. Reflete a jornalista.

   Na tranquilidade de quem tem convicção do que está falando, Aurenilo finaliza a nossa conversa com uma reflexão sensata: “Todos nós temos nossas limitações e todos somos pessoas normais. Não podemos ficar acomodados, porque dificuldade todo mundo tem. Precisamos é de conhecimento e coragem para enfrentar o que for necessário e conquistar o mundo.”, finaliza.

A Importância da Inclusão no Ambiente Escolar

OAB-CE em defesa da pessoa com deficiência

 
João Paulo Araújo

É preciso falar do abandono do doente de câncer

   Após o diagnóstico do câncer, a vida do paciente muda completamente. Lutar contra a doença não é nada fácil, principalmente para quem está no início da vida. E o preconceito das pessoas em relação ao paciente com câncer pode afetar ainda mais durante o período do tratamento.

   O câncer se dá pelo crescimento desordenado de células, que invadem os tecidos e órgãos, dividindo-se rapidamente, determinando a formação de tumores, que podem se espalhar em outras partes do corpo. Atualmente existem mais de 100 tipos da doença. No Brasil, em média 600 mil casos são diagnosticados por ano. Segundo dados levantados pelo Instituto Nacional do Câncer – INCA, os homens são os que mais apresentaram casos de câncer em 2018, com 300 mil registros; já as mulheres, 282 mil.

   Além do tratamento pesado que o paciente se submete após receber o diagnóstico, ainda sofre com a desvalorização social e o prejulgamento das pessoas. A representação da doença vai muito além do sistema biológico debilitado. Simboliza o abandono e o preconceito social, que, muitas vezes, são feitos sem serem percebidos.

Catarina vê a culinária como uma alegria diária (Foto: Arquivo pessoal)

   Catarina Feitosa, 22, foi diagnosticada com leucemia aos 21 anos de idade, do tipo mieloide aguda, câncer que ocorre no tecido que forma o sangue. Esse tipo de câncer geralmente se dá em pessoas que estão na idade adulta. Ela conta que no começo foi bem difícil aceitar a doença e o afastamento de pessoas próximas. “Quando fui diagnosticada, foi bem difícil. Muitos amigos se afastaram, mas o apoio da minha família foi essencial”, relata.

   Para a psicóloga Eirles Lemos, o preconceito inconsciente das pessoas se dá pela falta de conhecimento, capacidade ou medo que elas têm em conviver com quem está com câncer. “Geralmente, o afastamento ocorre pela ignorância do outro, que, muitas vezes, não sabe lidar com a responsabilidade de ajudar a pessoa que está com a doença”. Eirles conta que é importante estar próximo do paciente durante o tratamento: “Falar coisas boas, estar perto, assistir filmes, isso ajuda no psicológico e no tratamento. Eu chamo de clausura de alegria”, conta.

   O processo demorado no tratamento fez com que Catarina deixasse o trabalho, afastando-a mais ainda das pessoas. “Tive que sair do meu trabalho e me afastei de algumas pessoas para fazer o tratamento. A quimioterapia fez cair o meu cabelo, mas eu não raspei. Deixei crescer e hoje estou muito feliz, com o apoio da minha família. Sempre acreditando em Deus eu vou conseguir ser curada”. Catarina ainda está em tratamento, mas nada abala sua vontade de viver e superar a doença. Atualmente ela passa o tempo fazendo doces, algo que gosta muito. 

-Catarina Feitosa

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Muitos amigos se afastaram, mas o apoio da minha família foi essencial

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Depressão, a exclusão é um dos indícios da doença

   A depressão é uma doença que afeta milhares de pessoas no mundo. No Brasil, esse número já passa de 11,5 milhões de pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 322 milhões de pessoas sofrem com a doença. Entre 2005 e 2015, esse total alcançou 18,5% comparado aos anos anteriores.

   A causa da doença já é uma realidade ampla nas famílias brasileiras. Muitas pessoas confundem tristeza com depressão, o que são coisas bem distintas. Os fatores sociais e psicológicos são consequências da longa e exaustiva rotina das pessoas, o que pode confundir muito esses fatores.

   A psicóloga Jane Cavalcante conta que o bullying gera a exclusão involuntária dos indivíduos, podendo ser um dos indícios da doença, “O bullying muitas vezes gera conflito em relação de valores, isso é vinculado ao preconceito. Tem início nas próprias famílias que, por sua vez, acontece dentro dos dogmas de determinadas religiões, influenciando toda forma de preconceito”, relata.

   A informação é o principal meio para explicar que a doença não é “frescura”, como muitos acham, não é falta do que fazer. Jane fala que a psicologia ajuda a adequar os comportamentos socioculturais de cada um, “As diferenças permeiam o biopsicossocial. É importante não fazer prejulgamentos antes de criticar pessoas que passam pelo problema e que buscam sair desse sofrimento”, finaliza.

   Atualmente existem serviços voluntários, que ajudam e dão apoio emocional para todas as pessoas que sofrem de depressão e precisam conversar, como o Centro de Valorização da Vida, conveniado pelo Ministério da Saúde. Serviços assim permitem que o paciente ligue gratuitamente, converse e encontre uma forma melhor de viver a vida. Um desses serviços é o número 188.

 
Lanara Pinheiro

Língua Portuguesa como objeto de deboche?

   O preconceito linguístico é pouco discutido, mas real. Gerado por diferenças de sotaques entre pessoas - tanto as que falam o mesmo idioma ou que estão aprendendo a se comunicar em outro idioma e falam com nativos - no Brasil esse tipo de discriminação é recorrente devido ao tamanho do território do país, e também, muitas vezes, pela classe social. Cada língua surge de um fenômeno que é a variação, e segue variando: a língua que não sofre variação acaba por morrer.

   No Ceará, as gírias e a forma irreverente de falar são uma marcas registradas pelos moradores, que atribuem como uma língua própria, o ‘Cearencês’, e que já faz parte da cultura local. Porém, essa variação linguística não é aceita em outras regiões. Cearenses que viajam ou moram em outras partes do Brasil se tornam piada e são oprimidos pelo jeito diferente de falar. Paula Mirella,23, é cearense e morou dois meses em Brasília. Ela conta que não podia falar nada que as pessoas em volta ficaram imitando seu modo de falar, e isso lhe causava tristeza e intimidação. “Quando eu falava alguma gíria nordestina, ate mesmo sem perceber, como ‘arrudiar’ ou ‘aculá’ as pessoas riam de mim’’, relembra Mirella.

Roberta com sua filha Beatriz

   Ana Beatriz Firmiano tem apenas 9 anos e ja sentiu a intimidação desse preconceito. Beatriz nasceu em Fortaleza, mas mora em Santa Catarina. Sua mãe, Roberta Xavier, conta que as outras crianças excluiam Beatriz só por ela ser do Nordeste. Imitavam seu sotaque e deixavam ela fora dos grupinhos. “Sempre ensino minha filha que devemos respeitar as pessoas pela cor, classe social, escolha de sexo, ou qualquer tipo de diferença, pra não agir com preconceito. Então tirei ela desse colégio! É um colégio de pessoas de classe social bem elevada! E coloquei num mais simples. Nesse ela não passou por nenhum constrangimento" conta Roberta.

   No jornalismo esse preconceito é notado na falta de sotaque dos jornalistas dos telejornais locais. Muitas emissoras de tevê exigem que seus repórteres não tenham sotaque. O que pode parecer padrão, na verdade, pode ser preconceito com as diferenças em sotaque. O fato é que, com as redes sociais, emissoras estão reduzindo a pressão do sotaque, até porque quanto mais diferentes os sotaques, mais representativa pode ser a cobertura jornalística, geográfica, do país.

   O professor e mestre em Linguística Aplicada pela UECE, Fábio Delano Vidal, conta observa que a linguagem contém todo tipo de variação: geográfica, preconceito cultural, socioeconômico, gírias. Ele destaca que outra característica da linguagem é sua radical arbitrariedade, e que a língua é um instrumento de poder. Enfatiza ainda que desqualificar a forma que tal pessoa fala é uma forma de se colocar em uma posição de superioridade. Um caso famoso de humilhação e descriminação linguística é o de um médico em São Paulo, que debochou de um paciente, nas redes sociais, com a frase “Não existe peleumonia e nem raôxis“. O caso foi tratado como elitismo.

   A linguagem é a capacidade humana de gerar códigos, de produzir sistema de significado. Já as línguas naturais são sistemas de significados verbais construídos por determinada comunidade, falantes daquela língua natural. “As falas são diferentes entre jovens, adultos e ambiente de trabalho. ‘’Variações sócio culturais, como por exemplo, um grupo de arquitetos, tem termos, frases, que só eles entendem. Eles dominam seus jargões. Outro tipo de variação são as gírias, que funcionam em determinado grupo, determinada situação’’, analisa Fábio Delano.  

Galeria de Prints

Chico Bento e o preconceito linguístico

   O preconceito linguístico, como a maioria dos preconceitos, pode ficar implícito quando há variações linguísticas. Maurico de Souza, criador dos famosos quadrinhos da turma da Mônica, mostra essa variação linguística nas histórias de Chico Bento, o personagem principal que se utiliza de um sotaque bem rústico.

   Chico Bento é um menino que mora na roça, vive no interior. A variação linguística do personagem se dá pela sua regionalidade. Seu sotaque tem linguagem própria da sua região e em vários momentos dos quadrinhos o personagem passa por preconceitos dos amigos que não entendem sua linguagem e, principalmente, de sua professora, que exige que o menino utilize a norma padrão culta na hora de falar.

 

   Isso é um reflexo da vida real, já que muitos educadores não conseguem lidar com as variações linguísticas e interpretam uma gíria, um sotaque, como algo errado, corrigindo seus alunos por não seguir a norma culta da língua portuguesa.

  Chico Bento é um personagem fictício que demonstra claramente as variações linguísticas na língua portuguesa, resultado da miscigenação do povo brasileiro. O preconceito linguístico, como diz o escritor Marcos Bagno (O preconceito Linguístico, 1999), não existe português “melhor” ou “pior” que o outro.

Esclarecendo Algumas Dúvidas Sobre o Preconceito Linguístico

 

Estilo e sua influência no ramo social e empresarial

Neyliana Maia

   Dizem que a primeira impressão é a que fica. E, Infelizmente, as impressões muitas vezes são carregadas de preconceitos. Entre os vários tipos de preconceitos que a sociedade contemporânea revela, está o que se relaciona à aparência, presente tanto nas relações sociais como profissionais. Pessoas que possuem o visual fora do padrão ortodoxo sofrem com esse tipo de impressão na hora do processo seletivo para alguma empresa, diante de um determinado serviço ou simplesmente para se socializarem com seus amigos e familiares.

 

   Com relação ao mercado de trabalho, é comum que empresas que possuem o perfil focado no contato visual com os clientes/fornecedores não contratem pessoas que usem tatuagens, piercing ou que estão fora do padrão que as mesmas impõem para seus funcionários. Por conta disso, chegam a dispensar candidatos com bons perfis para o serviço por não apresentarem o visual “ideal”. Em todo caso, o trabalhador que sofrer discriminação por sua aparência pode entrar com uma ação por danos morais.

   A partir do momento em que se é valorizada a aparência física, gera-se o preconceito. E não são apenas as pessoas que possuem características díspares dos padrões de comportamento, físico ou visual que sofrem com isso. Modelos, professores e empreendedores também são vítimas, como é o caso do empresário e dono de uma academia em São Paulo, Marcelo Galega, que declara ter sofrido preconceito por parte de seus alunos por apresentar muitas tatuagens, de acordo com o site Economia.

 

   Silvana Silva, 22, não possui tatuagem ou piercing, mas por ser crente e usar as roupas que sua religião permite, assegura que já sofreu preconceito por sua vestimenta em uma seleção de trabalho pela moça que a atendeu. “Ela disse que eu não me enquadrava no perfil da loja e que nenhuma empresa iria me contratar por me vestir dessa forma”. No início, Silvana assegura, foi difícil lidar com o preconceito que sofre até hoje no trabalho e na família. Ela diz que as pessoas olham muito para o que os outros aparentam ser, em contraste com o que realmente são.

   Já o barman João Paulo, 25, afirma que começou a sofrer preconceito quando decidiu viver o rock e possuir tatuagem, usar preto e ter o cabelo longo e pintado. Ele relata que todos os dias sofre preconceito por sua aparência, tanto no trabalho como em locais públicos. “A gente entra no ônibus e percebe que o pessoal te olha torto por causa das suas tatuagens, da aparência. Uma vez uma senhora se afastou de mim pensando que eu fosse assaltar ela”.

-Silvana Silva

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Nos dias atuais, as pessoas olham muito a questão do que aparenta ser, se importando com o que se tem. É como dizem: a capa de um livro não diz nada sobre seu conteúdo

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   O artigo 3º da Constituição Brasileira determina: “Construir uma sociedade livre, justa e solidária. Promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Há inclusive previsão para penalidade, por meio da lei 4.815, que propõe punição para aqueles que cometerem discriminação por aparência física ou estilo

Galeria de prints

Aparência no trabalho e discriminação na internet

   Tudo o que fazemos é comunicação. Apesar de não ser expressa de forma direta, a aparência é um forte meio de transmitir uma mensagem. Ela faz parte de um diálogo silencioso, que constrói uma categorização com base em valores, sendo eles sociais ou culturais. Ela também pode estar relacionada à comunicação não-verbal.

 

   De acordo com o site ibcoaching, a comunicação não-verbal acontece por meio de gestos, expressões e comportamentos. No artigo, também é retratada a questão da aparência, a forma de se vestir, como algo fundamental para a construção da primeira impressão que alguém pode ter do outro.

 

   O preconceito pela aparência pode culminar, inclusive, no preconceito empresarial, visto que algumas empresas qualificam os candidatos às vagas de trabalho e a “boa aparência” chega a ser uma das qualificações exigidas de um profissional. Em 2016 foi aprovado, em segunda votação na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), o projeto de lei que proíbe o termo “boa aparência” no processo de recrutamento de pessoas.

 

   Nas redes sociais, esse tipo de discriminação tem caráter majoritário. De acordo com os dados divulgados pelo blog Comunica que Muda, a intolerância contra a aparência e outros tipos de preconceito ainda vigoram na internet. Sejam por meio de piadas, com a intolerância mais escondida, ou com o intuito mais explícito, o de ofender.

 

   Ainda segundo o blog, o site brasileiro Cathos constatou que, baseado em uma pesquisa feita em 2013, cerca de 6,2% dos empregadores afirmam não contratar pessoas obesas. Os casos de intolerância pela aparência costumam ser 79% explícitos, de acordo com os dados do blog, divulgados em 2016.

 

Cultura ressocializada: a realidade invisível dos índios na cidade

Paloma Negreiros

   Apesar de integrados às cidades e já possuírem vida social ativa no ambiente urbano, os povos indígenas ainda sofrem com o desconhecimento e estranhamento à sua cultura. Entre as tribos mais conhecidas próximas à Fortaleza estão a dos Tapebas – no município de Caucaia – e os Pitaguarys – no município de Maracanaú . No Ceará, são 14 tribos indígenas registradas, que diariamente lutam pela afirmação da sua identidade. Cada uma com suas particularidades, mas compartilhando o enfrentamento ao preconceito e desinformação no que diz respeito à cultura indígena.

 

   Os rituais de preservação aos costumes são constantemente celebrados, de forma a relembrar aos mais novos a herança deixada pelos seus ancestrais. Até porque o idioma das tribos cearenses já se perdeu, diante da repressão ao longo do tempo de colonização.

   É comum que, ainda hoje, exista o estereótipo de que o índio ainda viva em ocas em sua aldeia, usando cocar e vestido de forma característica. É o que conta Gerliane Alves, de 27 anos, que vive na região dos Pitaguarys. “As pessoas na faculdade perguntam se sou realmente índia, já que nunca estou com nenhum adorno característico. Eu explico: gente, só nos vestimos assim para celebrações específicas. Mas ainda existe muito essa dúvida”, ela conta.

 

   Os movimentos sociais organizados por negros ou a seu favor no Brasil já somam muitas conquistas e espaços. Já os movimentos pelo fim do preconceito indígena ainda não têm tanta visibilidade, fato talvez gerado pela quantidade de comunidades que existem. É preciso que haja o conhecimento por parte dos povos indígenas no que diz respeito aos seus direitos de tomada de espaço social, assim como da sociedade em relação aos direitos dos povos indígenas.

-Gerliane Alves

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As pessoas perguntam se sou realmente índia, já que nunca estou com nenhum adorno característico. Eu explico: gente, só nos vestimos assim para celebrações específicas

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   Assim como Gerliane, Cícero Maia, de 33 anos e também integrante da aldeia Pitaguary, observa que as pessoas esperam caracterização indígena para a afirmação de sua identidade. “Em entrevistas de emprego os entrevistadores com muita frequência se demoram muito no fato da minha descendência. Perguntam coisas fora de contexto, tanto por curiosidade quanto por desconhecimento. Antes eu ficava constrangido, hoje aprendi a levar”.

 

   Além de ser papel da população buscar por informação a fim de cessar todo e qualquer pré-julgamento em relação aos indígenas, é inquestionável o dever da mídia de explanar melhor sobre a situação atual dos índios, desmistificar e conscientizar sobre a visão equivocada que ainda se tem sobre esses povos. Os veículos de comunicação devem usar seu poder de informação para quebrar paradigmas e valorizar o histórico cultural carregado pelos indígenas que tanto têm a acrescentar socialmente.

Galeria: Reserva Pitaguary